Quando
foi exibido o episódio 2 do Meikai-hen Zenshô (primeira
fase da saga Inferno de Hades), "Um Tribunal Silencioso", muitos
fãs ficaram curiosos ao ver que o livro do julgamente de Rune
estava escrito em francês. Ao observarem os créditos
finais do OVA, um nome em caracteres ocidentais chamou a
atenção de todos: Guillaume Quatravaux. Seria ele o
responsável pelo livro de Rune? O que mais ele fez? Muitas
duvidas surgiram, até que os fãs franceses localizaram o
também francês, Guillaume Quatravaux, e o próprio
apareceu no então famoso site/forum francês Cyna.net para
comentar um pouco sobre sua meteórica e única
participação na animação de Saint Seiya.
Abaixo segue a minha tradução de registros que guardei
daquela época.
O nome de Guillaume nos créditos finais do OVA 2.
(Espanto)
Eu não achava que houvesse um batalhão assim de
fãs hardcore de Saint Seiya! E especialmente que o meu nome
levantaria tantas perguntas!
Olá, sou
Guillaume Quatravaux. Eu participei do layout dos episódios da
nova série de Saint Seiya. Não posso dizer que desenhei
bastante, mas o pouco que fiz foi um prazer e uma enorme fonte de
aprendizado em um tempo muito curto.
Respondendo a
um rumor engraçado, não, eu não tenho
absolutamente nada a ver com o livro de Luné (Rune ou como quer
o chamem... aqui [Japão], a pronúncia é
Luné). É por meio deste post que eu descobri o que era.
É muito engraçado ver o resultado [o livro de Rune ser em
francês e não em grego como no mangá]. Eles
deveriam ter tirado uma página do catálogo
telefônico francês, teria sido ainda melhor (e quase mais
lógica). Como podem ver, esse anime não é voltado,
realmente, ao público estrangeiro.
Se vocês
tiverem dúvidas, vão em frente. Posso não ser
capaz de responder tudo, mas posso obter as informações
adicionais, que irá trazer-me também as respostas
às perguntas que eu não tinha levantado. [...]
(post em
cyna.net, em 16/01/2006)
[após
algumas perguntas de fãs, ele torna a se pronunciar]
Eu adoro Saint
Seiya, e isso [ter trabalhado em um OVA] é porque uma amiga
minha recebeu essa oferta de
trabalho, ela teve a gentileza de compartilhá-lo comigo,
já que eu coleciono os novos bonecos. É divertido, ela me
vê como um "grande fã" de Saint Seiya, só que
vocês é que são mesmo. Tenho grande nostalgia, e
arrepios pelos velhos episódios, e para mim as músicas
estão entre as mais belas já criadas para a
animação.
Tomei parte
só no segundo episódio, mas eu perguntarei se posso
ajudar com a continuação. Tudo depende dos planos deles e
das suas necessidades. Geralmente, os estúdios é que
pedem, e não os animadores no Japão.
Eu não
vi o Sr. Araki. Eu só vi o assistente do episódio e o
diretor (mesmo não tendo certeza). Eu trabalho em outra
série que não tem nada a ver, e então eu tive
tempo para dedicar à tarefa que me foi dada.
Saber se ele
[Araki] gosta de trabalhar em Saint Seiya, eu não sei, mas
aparentemente, ele faz quase todos os desenhos básicos, bem como
as correções. Não posso dizer no momento em que
percentagem, mas ele é muito comprometido.
Eu tive seus
desenhos originais, corrigidos por ele mesmo, e minha tarefa era
limpá-los, adicionar sombras e reflexos nas Armaduras. Foi
fantástico "mexer" com os originais do Sr. Araki. É [um
desenho] muito arrojado e muito agradável. Aprende-se muito
redesenhando por cima. É um trabalho delicado, porque tem que se
saber como "decifrar" seus desenhos, sem cometer erros, e especialmente
não trair o seu desenho original, mesmo que as coisas possam
parecer bizarras. Não se deve reinterpretar um desenho. De todo
modo, os desenhos são revisados mais uma vez na etapa seguinte.
Não vi
nada dos novos episódios além daquele em que eu
trabalhei, que eu vergonhosamente baixei [fez o download]… Eu
vou comprar os DVDs quando saírem (de recordação).
É muito emocionante ver seu próprio nome em Saint Seiya.
Eu acho que nunca me senti tão animado com qualquer outra coisa.
Ainda assim
estou bastante desapontado com o resultado. A qualidade global dos
novos episódios está francamento em declínio. Mas
temos que ver as condições de trabalho e o tempo que
é dado à diferentes pessoas (e eu imagino que sejam
milhares, ou não). Mas essa é outra discussão.
Vou tentar
perguntar a alguém sobre as outras questões: o
estúdio das decorações [dos
cenários]… [...]
(post em
cyna.net, em 16/01/2006)
Como prometido,
um pequeno romance só para vocês.
Nota: Sra.
Himeno, até eu vir a este fórum, pensava que era um
homem… Estou realmente, REALMENTE no chão! Aprende-se
algo novo todo dia!
Vamos por ordem:
Eu sempre fui
fascinado pela animação, principalmente a
animação japonesa. Comecei a aprender japonês em
Paris quando eu estava na escola e tinha 17 anos. Em seguida, depois da
escola, eu fui para a universidade aprender japonês, que eu
larguei depois de um ano. Claro que não se aprendia a falar
nesse tipo de lugar. Depois tive alguns empregos por algum tempo
(bares, callcenter, vendedor de video games) até que eu decidi
seriamente me preparar para entrar em Gobelins [Escola Audiovisual de
Paris]. Passei um ano em escola preparatória para me atualizar,
o que não me agradou muito. Apesar de tudo, entrei na
seleção para Gobelins, e cheguei à última
fase. Na verdade não fui selectionado no final. Passei a
competição EMCA de Angoulême, onde estudei por dois
anos. Na mesma época eu fiz um filme como um ator. No final dos
meus estudos da EMCA eu procurei por uns dois meses de
treinamento no Japão (necessários para validar meu ano de
estudo) enquanto eu estava fazendo turismo e a divulgação
do filme. Eu queria trabalhar na companhia francesa “Sav!”,
que estava produzindo naquela época “Molly Star
Racer” entre Paris e Tóquio. O trailer dessa
produção me deixou profundamente empolgado alguns anos
atrás (como muitos outros). Queria a todo custo ser parte desta
produção. O posto que eu tomaria era irrelevante. Depois
de promover o filme, fui selecionado para dois meses de estágio
em Tóquio como assistente de produção em Molly.
cuidando da ligação entre a França e o
Japão com elementos 3D, e eu parti imediatamente para o
Japão (Dezembro de 2004). Depois destes dois meses de
estágio, fui contratado, e ainda estou.
Desde que eu
trabalho em um estúdio tradicional de animação, me
dei muito bem com uma pessoa em particular, Sra. Kobayashi, uma
animadora estabelecida. Sabendo de meu interesse por Seiya (a
série, não sujeito… huhuuu), e que eu tinha uma
boba coleção completa de Cloth Myths (que são mais
fáceis de encontrar localmente), ela me disse animada que tinha
uma oferta para trabalhar no novo capítulo de Saint Seiya. Fique
super empolgado com a idéia de ser capaz de ver model sheets
originais e o story board. Que privilégio. Kobayashi-san
finalmente aceitou o trabalho depois de ter hesitado um bom tempo (ela
tinha um monte de trabalho e não conhecia mesmo Saint Seiya.
Para dizer a verdade, ela realmente tinha pouco a ver), e - suspeito -
ela queria me agradar. Ela me levou para o estúdio da TOEI e me
apresentou como seu assistente "especialista em Saint Seiya”
(hum), então foi assim que ela me confiou os planos que eu
queria.
Foi assim como
tudo aconteceu (Ufa).
O mundo do
anime é muito pequeno no Japão afinal. Sem esperar,
você pode topar com grandes animadores perto do estúdio de
animação (eu cruzei com Satoshi Kon [trabalhou em GTO,
Patlabor 2, Tokyo Godfathers, Paprika e outros], e Morimoto enquanto
dava uma voltinha, só para dar um exemplo… mas seria
outra coisa se tivesse falado com eles...).
Estou muito
feliz de viver no Japão. Mas a razão é simples:
tenho uma posição confortável graças ao
fato de eu trabalhar em uma companhia francesa. Não vou dar
detalhes, mas é claro que se eu trablhasse como animador para
uma companhia japonesa, o meu padrão de vida seria
qualitativamente reduzido por 4! A animação é
realmente mal remunerada no Japão. Os animadores são
pagos por folhas desenhadas. Então, imagine que para comer
é necessário trabalhar extremamente duro e rápido!
As coisas que
me incomodam no Japão são especialmente os terremotos,
muito assustadores, apesar de estar um pouco acostumado agora. Outra
coisa que às vezes é um pouco difícil é o
fato de que, querendo ou não, sou estrangeiro e outra coisa
é que às vezes é um pouco díficil se
comunicar. Mesmo que você se esforce para falar japonês,
você frequentemente responde em inglês, mesmo que
você consiga formar uma bela frase. E toda vez que eu abro a
porta de um táxi e o motorista vê meu rosto, há um
tipo de momento de curta hesitação! hihi. Sou sortudo por
ter um trabalho sem estresse, mesmo estando cansado. Eu devo ir
só de segunda-feira até sábado. Só um
domingo não é suficiente para curtir a vida. Muitas vezes
eu estou cansado para sair e aproveitar a vida (vou parar de falar da
minha vida… é que foram vocês que me pressionaram a
isso aqui!).
Por outro lado,
é fantástico ser capaz de comer coisas boas, ter seus
próprios hábitos, aprender novas palavras, novas coisas
sobre a cultura japonesa, ter grandes lojas, etc. Uma das coisas que
mais aprecio é que nunca me senti em perigo (exceto pelas
catástrofes naturais...). Não tenho medo de ser atacado
ou
de que roubem a minha carteira. Não estou dizendo que isso
não aconteça, mas é muito raro. A cidade é
limpa, sem sujeira de cachorro - é verdade não vi nem UM!
Pode acontecer de existirem lugares sujos, mas é relativamente
bem limpa em comparação com Paris, por exemplo. Tudo
é bastante prático, os trens nunca se atrasam, etc. A
vida é muito cara, mas se acostuma com isso. Uma vez que sabemos
o preço das coisas, tudo é relativo. O que é caro
na França, não é necessariamente aqui, e
vice-versa. Vou parar agora.
No que diz
respeito à diminuição da qualidade (o que,
infelizmente, não se aplica só à Saint Seiya),
isto é, não se deve só ao tempo [ tempo para a
produção de cada episódio]. É verdade que o
tempo passa muito rápido. Lembro-me ainda de quando
perguntava a Sra. Kobayashi "quando devo terminar?" e ela alegremente
respondia "Ah, você deve terminar...para ontem!". Surpreende-me o
quão rápido os episódios foram
exibidos depois de eu ter enviado meus desenhos! 1 mês ...
Mas a verdade
é que no Japão, por incrível que pareça,
há uma falta de animadores, e o pior, bons animadores. Há
mais demanda do que oferta. As companhias devem contratar jovens
entusiastas, que muitas vezes vivem ainda com seus pais (muito tarde).
A maioria desiste ao longo do caminho, porque é realmente
extremo. Bons animadores estão agrupadas em séries ou
filmes de grande orçamento. Isso é, se eles aceitarem...
Os animadores
trabalham de 7 dias por semana, e eles saem à noite. O "nomikai"
é de utilidade pública (para quem não sabe,
é sair por aí, para pequenos bares ou restarautantes,
ficando um pouco bêbados e você ri e conversa...). Falando
nisso, eu planejei uma noite de quinta-feira com o pessoal do meu
estúdio ....Êba (Zzzz - sono)
Minha
contribuição à Seiya, eu fiz longe da Toei, no
estúdio onde eu passo meus dias. Fiz desenhos à noite ...
por falta de tempo! E foi a minha primeira experiência com as
técnicas especiais de animação japonesa, eu
dediquei meu tempo para fazer o melhor. O meu maior receio era
não entregar, falhar completamente com as sombras, estragar a
concepção original do senhor Araki, e ser
ridícularizado, que me jogassem pedras e me apontassem em todo o
Japão. Felizmente, eu aprendi que existe ainda uma rede de
salvamento em caso de covardia. Sra. Kobayashi sempre me diz
"Não se preocupe tanto, se houver um problema ele será
corrigido depois, não será mais sua tarefa".
Isso realmente remove um monte de estresse.
Tudo que eu fiz
foram somente 3 desenhos, incluindo dois que são as
memórias dos combates do Seiya. Eu escolhi um dos mais belos
desenhos (que ficou explêndido em uma grande folha...e por isso,
era realmente todo difícil, com 3 camadas de
correções...) com Seiya que dá um chute no
cavaleiro de Leão (embora todo este trabalho seja só para
alguns centésimos de segundo, snifff...).
Coloquem as
capturas de telas mostrando o resultado final do que fiz.
Versão finalizada no anime dos 3 únicos desenhos de
Guillaume.
Não sei
a opinião da equipe de produção sobre o novo rumo
da série, mas da minha parte, acho que as novas vozes não
são brilhantes, e Seiya é ridículo. Já
não é tão esperto como no início, ele passa
por um perfeito idiota (talvez este seja muito mais próximo do
mangá, como infelizmente eu nunca li). Eu vi que ele
supostamente iria peidar (como no mangá?)...hu hu hu. Não
me matem, é apenas uma opinião pessoal! Acho que ainda
fazem as pessoas pagarem um preço alto por uma qualidade
mediana, eu não acho muito honesto. De qualquer maneira, estou
satisfeito, no entanto, que a "mágica" continua, e segue a
história original (que sonhamos esta série de Hades, e
aí está ... agora eu vou parar de reclamar também).
Estou meio
frustrado por não ter como contar mais sobre a atmosfera e a
opinião da equipe técnica da Toei. No Japão,
é muito comum que os animadores sejam autônomos
[freelancers], que são responsáveis por uma série
de desenhos em vários projetos ao mesmo tempo. No meu
estúdio, por exemplo, alguns animadores estão trabalhando
em outras séries que não têm nada a ver com o
estúdio (como "Full Metal Alchemist" e outros...). Eles levam
com eles as folhas de desenho, e trabalham nelas onde querem (e onde
eles podem! muitas vezes em casa, aliás) entre as várias
reuniões que possam ter. A divisão do trabalho é
distribuída entre vários diferentes estúdios de
composição ou edição. Tudo não
está no mesmo estúdio! E muito poucas pessoas trabalham
em uma só produção. Eu não posso dizer
exatamente quantas. Mas perguntarei em algum momento.
E não,
eles não enviam DVDs aos animadores. Em qualquer caso, a
idéia era uma graça!
Vou deixar
vocês, e eu desejo-lhe tudo de bom, e até a próxima!
Guillaume
(post em
cyna.net, em 17/01/2006)
[...]
Sim, eu vi o
story board que é exigido para acompanhar o que acontece.
É muito feio e muito básico. Mas os desenhos nesta
série não são muito complicados. Eles são
geralmente close-ups no rosto que falam por horas (ahhh Saint Seiya).
Então campos / contra campos e etc. Em uma série
não é hora de fazer lindos desenhos sobre o story board,
sem perder tempo. É elucidativa. Mesmo assim, isso é uma
faca de dois gumes, pois pode haver má
interpretação quando um desenho é muito breve.
Deve-se estar bastante familiarizado com os códigos
gráficos em japonês. Devo dizer que não tão
evidentes. São
muito diferentes em longa-metragens. Os desenhos são mais
avançados, em geral, vê-se a mesma réplica exata do
que será projetada na tela (já viram os story boards de
Satoshi Kon?).
Para o
resultado final, é realmente surpreendente. Fazem o trabalho
[traduzir o story boar em belos desenhos] sem realmente saber o que vai
dar. Por exemplo, foi a primeira vez que fiz sombras sobre a armadura
de Saint Seiya (pelo menos não desde os meus 7-8 anos em que eu
fazia desenhos sobre as caixas de brinquedo de Saint Seiya...).
Então eu tive que improvisar, vi alguns velhos episódios
em divx, e alguns novos (a técnica tem uma pequena
mudança, com todos estes efeitos degradados não muito
agradáveis). Eu misturei um pouco de ambos. Eu também
percebi que o desenho da armadura muda um pouco de um plano para
outro...Mudam muito...Não sabia mais qual fazer. Com o
Leão fiquei incomodado, porque os modelos sobre os primeiros 13
novos episódios difere do desenho que eu tinha. Mas não
me forneceram qualquer modelo exemplar para o Leão ou
Asterion...nada fácil. Encontrei uma foto de Asterion depois no
Manga e eu fiz com ele (o esboço do Senhor Araki era realmente
preciso). Acho que eles
consideram que houve tantos episódios que não é
necessário fornecer todos os modelos ... Não sei, mas
é bom fazer uma pequena pesquisa. Então,
no final eu estava muito feliz. Tudo o que fiz foi mantido sem
correções. Tudo foi redesenhado "limpo" (eu teria gostado
de dar este passo, mas bom...) e, em seguida, colorido. É legal,
você faz as indicações e a magia, é tudo
feito sozinho. Animação
muito simpática para ele! (atenção às
más surpresas mesmo assim ...)
[...]
(post em
cyna.net, em 18/01/2006 - esse foi o último comentário
relevante sobre o trabalho de Guilleume sobre Saint Seiya)
Desde
então, Guillaume não teve a oportunidade de participar
novamente de Saint Seiya.